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Esta
coluna é atualizada às segundas e sextas-feiras
De
como estão sepultando a "Era Vargas"
(II)
"Quis criar
a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através
da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação
se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não
querem que o povo seja independente". (Da carta-testamento do presidente
Vargas, de 24 de agosto de 1954)
Como disse na minha
última coluna, o sepultamento da "Era Vargas" é obra
de mentes escoladas destes tempos de esperteza e pode se definir como cartada
sob encomenda com a dupla assinatura das almas gêmeas que consolidam o
grande passo atrás, sob o manto "neoliberal" da inclusão
do País no universo manipulado da globalização.
Há uma compulsória
simbiose no assassinato premeditado: destroçar o repertório de
conquistas trabalhistas e destruir os fundamentos da economia soberana são
duas faces da mesma moeda que vão ganhando novos desenhos numa hábil
simultaneidade.
A castração
dos direitos sociais processa-se por vias oblíquas em função
da superposição de leis. Suprimem-se as garantias trabalhistas
no bojo de legislações de natureza econômica. Estas são
tão bem direcionadas que não se faz necessário revogar
o disposto na CLT.
Não é
diferente a tática para derrubar as muralhas da soberania econômica.
Trata-se então de produzir espasmos moleculares que enfraquecem os pilares
da economia numa linguagem sofismada.
No altar das profusas
mistificações, não é difícil vender gato
por lebre. A cada nova geração de brasileiros obtém-se
o que se poderia chamar de lobotomia de nascença. São safras humanas
cada vez com menor desejo de informação, menor espírito
crítico e mais precária composição cultural. Com
essa alienação de nascença, a desfiguração
da nacionalidade se dá sem choro, nem vela.
Petrobras como
alvo
Na detonação
dos fundamentos econômicos da "Era Vargas" a maior voltagem
se aplica no choque que atinge a Petrobras, a filha que levou Getúlio
ao suicídio. Porque seu nascimento naquele 3 de outubro de 1953 foi,
de fato, a sentença de morte que se consumou no 24 de agosto de 1954.
Ironicamente, agosto, esse mês de momentos tão insanos, foi o escolhido
para a primeira pernada fatal no monopólio estatal do petróleo,
o caminho patriótico que Getúlio Vargas escolheu no turbilhão
de um conflito que vinha desde 1948, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra
tentou aprovar o "Estatuto do Petróleo", ressuscitado pela
malsinada Lei 9478, de 6 de agosto de 1997, que ganhou a alcunha de "Lei
do Petróleo".
Naqueles idos recentes
o professor Fernando Henrique fez seu pai, o general Leônidas Cardoso,
nacionalista de quatro costados, remexer-se no túmulo, ao patrocinar
e sancionar o estatuto que Dutra não conseguiu aprovar, garantindo casa,
comida e roupa lavada para os grupos privados que quisessem tirar uma casquinha
em nossas nada misteriosas reservas de petróleo e gás.
De 1997 para cá,
o desmanche da "Era Vargas" na sua obstinação pela soberania,
cujo emblema maior foi a Lei 2004/53, teve efeitos mais corrosivos do que tudo
que se tentou antes, quando os entreguistas dos anos 40, encabeçados
pelo confuso general Juarez Távora, perderam a primeira batalha ante
a oposição dos nacionalistas liderados pelos generais Horta Barbosa,
ex-presidente do Conselho Nacional do Petróleo; Salvador César
Obino e Estilac Leal, ex-presidentes do Clube Militar, a primeira cidadela da
resistência em defesa do nosso petróleo.
Sob a égide
da nova "Lei do Petróleo", que permanece intacta há
exatos 11 anos, o governo vai abrindo espaço para as empresas estrangeiras
em condições humilhantes: primeiro, levam a leilão bacias
petrolíferas onde já se sabe que tem petróleo, em função
do notável desempenho dos profissionais da Petrobras; depois, estabelecem
retorno ao Estado muito inferior à média praticada no mundo; finalmente,
associam a nossa estatal a grupos privados vorazes numa exploração
subimperialista em 27 países, como era da essência do "Relatório
Link", aquele que, na década de 60, à frente da equipe de
estrangeiros que fez as primeiras análises, disse que não havia
petróleo no Brasil.
Discussão
imprópria
Nessa faina, abrem
uma discussão insólita e diversionista, como essa da criação
de uma nova estatal só para as áreas da nova abundância,
numa postura denunciada pelo engenheiro Fernando Siqueira, um bamba no assunto,
como "a troca de seis por meia dúzia".
Essa seria igualmente
uma macaquice matreira, como se infere do brilhante artigo de Wladmir Coelho,
mestre em direito e historiador, que mostrou o subterfúgio: o governo
brasileiro estaria recorrendo à fórmula norueguesa, adotada em
2002, para chegar ao Ártico, uma área disputada com os Estados
Unidos, Rússia e Canadá.
Fernando Siqueira,
um dos expoentes da Associação dos Engenheiros da Petrobras, falando
em nome da entidade, pôs os pingos nos "is" ao demonstrar o
arranhão da nossa soberania:
"O governo
federal recebe hoje menos da metade do que recebem os países exportadores
pela exploração do petróleo (em suas bacias) e isso é
gravíssimo - porque o pré-sal tem um potencial aí da ordem
de 90 bilhões de barris. Se o petróleo se mantiver aí na
casa dos US$ 100 o barril (e está acima disso), significa que há
nas reservas cerca de US$ 9 trilhões que pertencem ao povo brasileiro.
Esse volume de recursos seria entregue para empresas estrangeiras por meio de
leilões impostos pelo atual marco regulatório".
Considerando essas
reservas, temos só nessa área o equivalente a 9 anos de todo PIB
nacional. Para Fernando Siqueira, o essencial é mudar a "Lei do
Petróleo", objeto de uma proposta detalhada da Aepet, encaminhada
em maio passado ao Congresso Nacional.
"O governo
pode até fazer leilões, mas tem que mudar a lei e remunerar as
empresas nos mesmos percentuais da média mundial. Ou seja, passar de
40% para 84% o valor a ser pago sob a forma de tributos e participações
especiais".
Essa postura de
alma gêmea interiorizada por Lula em face de FHC, no desvario exorcista
em relação ao marco estabelecido por uma obra sedimentária
e transcendental, vai custar muito ao povo trabalhador. Mas também será
um exuberante corpo de delito no julgamento destes dias tristes, pincelados
por uma decepcionante e incondicional sujeição ao sistema internacional.
Sujeição
que jamais se daria sob inspiração de Getúlio, Jango ou
Brizola.
coluna@pedroporfirio.com
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