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quinta-feira, 11 de março de 2010 | 09:38

Reprodução do artigo publicado no dia 11 de março de 1967, com o título textual: “O PRESIDENTE HUMBERTO DO AMARAL PEIXOTO”. (Com acesso de raiva e promessas de vingança).

Não é de hoje que comparo os dois, Castelo Branco e o almirante, genro de Vargas, que começou como capitão da Marinha, Ajudante de Ordens do ditador, casou com sua filha, fez uma das carreiras mais longas da História do Brasil. Ministro, senador, almirante, que “enjoava” na Barca da Cantareira, nunca entrou num navio. Só não chegou a presidente, o general depois marechal, chegou, mas entre aspas.

Além da farda, os dois têm muito em comum. Falta de caráter, desinteresse pela humanidade, o desapreço pela cultura, pela verdade, o fato de se considerarem “maquiavélicos”, uma visão deturpada do que a palavra significava ou significa, pois jamais leram Maquiavel.

Os dois, Castelo e Amaral Peixoto, deram demonstração irrefutável e indiscutível de quanto se parecem ou se assemelham, antes mesmo da posse. E pode ser tido como fato rigorosamente verdadeiro, que Amaral Peixoto facilitou, em muito, a chegada ao “governo” de Castelo Branco.

Agora que Castelo Branco se prepara e deixará o governo, é fácil constatar o quanto de mentira, de manipulação, de apoio de banqueiros e empresários poderosos, foi necessário para FAZER CASTELO “presidente”. Tudo o que vão contando nesses quase 3 anos, não tem a menor veracidade. Quem mais trabalhou, militarmente para Castelo, se chama Humberto de Alencar Castelo Branco. A confusão era tanta em 31 de março/1º de abril, que se João Goulart não fizesse os dois comícios de 13 de março na Central e 28 também de março, no Automóvel Clube, continuaria no Poder, 6 governadores eram candidatos a presidente em 1965. (Além de JK, que passando o cargo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, lançou a própria candidatura para novo mandato em 1965. Como Prudente de Moraes em 1898, não admitiu reeleição).

Do ponto de vista civil, o grande artífice da “presidencia” Castelo, foi Amaral Peixoto, presidente do PSD, o maior partido do país. Sendo ao mesmo tempo militar e civil, ambiguidade que a Constituição de 1946 acabou de direito mas não de fato, sabia de tudo, era bem informadíssimo.

No dia 3 de abril, Ranieri Mazzili como presidente substituto, (Jango já era o vice, Ranieri teve que assumir como presidente da Câmara), o espertissimo Amaral Peixoto, telefonou para Negrão de Lima, (o “Correio do Czar” de Vargas para implantar o “Estado Novo” e que diziam era “compadre” de Castelo), relatou seu plano, que o ainda mais esperto Negrão apoiou estusiasmado.

Sumariamente: Negrão procurou o tão desprendidamente ‘NÃO” candidato Castelo Branco, e ofereceu o apoio do Congresso à sua candidatura a presidente. Lógico, Castelo perguntou imediatamente: “E o presidente Juscelino, como ficará?”. Resposta: “Primeiro o senhor conversa com o Almirante Amaral Peixoto, e sua obrigação é convencê-lo”;

Negrão saiu da casa de Castelo, encontrou com Amaral Peixoto, foram para o apartamento de Joaquim Ramos, deputado de muitos mandatos e irmão de Nereu Ramos.

Se estou contando a entrada de Castelo Branco na história no momento de sua saída, é por causa de um fato: ele traiu a todos, não traiu a si mesmo porque não tinha convicções. Chegou a telefonar para o general Amaury Kruel, com quem não falava desde os tempos da Escola Militar.

Motivo: Kruel, aquele “alemanzão” de quase 2 metros de altura, gozava e satirizava Castelo o tempo todo, identificando-o como “quasimodo”, por causa de sua quase deformação física. Depois, na FEB, Kruel acusou o então Tenente-Coronel Castelo Branco, (frente a frente, Castelo chorou) de ter sido o responsável pelo desastre da “subida do Monte Castelo”. (O nome é coincidência).

Mas não é coincidência ou irresponsabilidade, o fato do general Floriano de Lima Brayner, (Chefe do Estado Maior do Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB) ter escrito 2 livros, contando minuciosamente, os erros monumentais de ESTRATEGIA E PLANEJAMENTO, na importante missão.

No dia 5 de abril (continuava a “arquitetura” militar dos amigos de Castelo) no plano civil, Amaral dominava tudo. O encontro foi marcado para as 10 da manhã. Castelo chegou com Negrão, o presidente do PSD já estava lá. Conversaram, não faltava muito. Quando falaram em Juscelino, Amaral Peixoto respondeu, tinha procuração para isso: “O presidente Juscelino estará aqui, a hora que for marcada e conversará com o senhor”. O futuro “presidente”, dentro de alguns dias, ex-“presidente”, foi embora com Negrão.

No dia seguinte, Juscelino estava lá, conversou pela primeira vez com Castelo. O que é que JK podia fazer? Compromisso de Castelo: “Presidente, só quero defender as instituições, não posso deixar que elas se DETERIOREM”. (Palavra textual).

E mais de Castelo: “O senhor é candidato a presidente em 1965, GARANTO A ELEIÇÃO. Mas se eu assumir como Chefe do governo Provisório, não terei Poder algum. O Poder não estará nas minhas mãos”.

Juscelino levara com ele, José Maria Alckmin, seu Ministro da Fazenda, e o mais extraordinário coordenador político que já existiu. Era tanta a vontade de Castelo de “resolver” tudo ali, que disse a JK: “Para confirmar meus compromissos eleitorais e democráticos, agora mesmo convido seu amigo, Ministro Alckmin, para vice-presidente na minha chapa”.

É esse o presidente que está deixando o Poder, odiado por todos e com aversão pelo espelho, no qual raramente se mirava, e as razões eram muitas.

***

PS – Para terminar, dois fatos que não estão no artigo transcrito. Depois que Castelo e JK, foram embora , (separadamente), Amaral, Negrão, o já vice-presidente Alckmin e o dono da casa, abriram champanhe. E Amaral fez a saudação: “Estamos novamente no Poder”. Não era exagero.

PS2 – Assim que o jornal foi para as bancas, Carlos Lacerda me telefonou: “Você não pode juntar Castelo Branco com Amaral Peixoto, são pessoas diferentes”. Ele tinha o direito de dizer o que bem entendesse, e eu de não escutar. Foi o que aconteceu.

7 comments to Reprodução do artigo publicado no dia 11 de março de 1967, com o título textual: “O PRESIDENTE HUMBERTO DO AMARAL PEIXOTO”. (Com acesso de raiva e promessas de vingança).

  • Está muito ruim de ler os textos todos em negrito.

    As marcações em negrito servem para enfatizar ou destacar alguma parte do texto, facilitar a leitura rápida e, sendo utilizada em todo o texto, além de perder sua função, torna a leitura com um tom de agressividade.

    Sugiro rever o uso do negrito.

    Seu fâ!

  • felipe

    prezado reporter, bom dia! aproveitando os tempos de ‘socialização dos royalties do petroleo’, gostaria que o senhor nos contasse um pouco sobre a historia de politicos eleitos pelo povo fluminense que se voltaram contra suas bases, nao defendendo o estado do rj, a semelhanca dos poucos que votaram contra o rio ontem na camara federal. abraco, felipe,

  • Fitzcarraldo Silva

    QUE VENDAM BRASÍLIA, ORAS!!

    Hoje estão noticiando que o Exército vai vender alguns de seus imóveis ( o que renderá fabulosas comissões aos “corretores” credenciados), e com o dinheiro arrecadado, reequipar e reorganizar as Forças Armadas. Até que não é uma má idéia, não fosse as “comissões” o objetivo principal….
    Acho que União deveria fazer a mesma coisa. Vender muitos de seus imóveis (principalmente Brasília), e com esse dinheiro arrecadado, devolver os bilhões (200 bilhões -valor aproximado) que os governos, desde 1956, tiraram da Previdência (antigamente Caixas de Previdência), para construir Brasília, Itaipu, Transamazônica, para dar pensões a quem nunca contribuiu, para subvencionar aposentadorias milionárias e para pagar as Bolsas-Ditadura da vida, E NUNCA DEVOLVERAM À PREVIDÊNCIA!!!
    E com o dinheiro arrecadado na venda dos imóveis (de preferência sem o pagamento de comissões por fora…), melhorar as aposentadorias dos contribuintes do INSS, que são achatadas ano a ano…

  • JOSÉ CARLOS WERNECK

    Prezado Helio,meus sinceros cumprimentos.Este seu artigo é simplesmente MAGISTRAL!Além do mais rigorosamente verdadeiro e rico em detalhes históricos.Eu tinha dezeseis anos e acompanhei de perto esses acontecimentos junto a meu pai que era primo e amigo de Carlos Lacerda e como era mineiro de Juiz de Fora,conseguia a proeza de,também, ser amigo de José Maria Alckimin,desde que ele foi ministro da Fazenda de JK e morava no Hotel Califórnia na Avenida Atlântica,em cujo bar,gastavam horas em conversas regadas a whisky.Nessa época eu tinha dez ou onze anos e intrigado ouvia as conversas e aprendi a entender a “índole” mineira,chegando um dia a perguntar curioso a meu pai.Mas como um eleitor de Carlos Lacerda pode ser amigo do Alkimin?Ao que ele calma e mineiramente respondeu:a amizade pessoal está sempre acima das posições políticas.Infelizmente nunca aprendi esta lição.Sempre fui um radical,e ao contrário dos bons vinhos,só pioro com a idade.Mais uma vez,parabéns pelo excelente texto.Grande abraço,Werneck.

  • Antonio Santos Aquino

    Hélio, Amaral Peixoto era o que se costumava chamar uma “raposa felpuda” do PSD. O jogo político “dessa espécie” já em extinção, era permeado, de maquiavelismo e jogadas ditas de inteligência. Amaral Peixoto desde 1924 emsaiava os primeiros passos na política, passando em 1930 a ser protegido pelo almirante Ari Parreira e posteriormente pelo almirante Protógenes Guimarães que era seu “padrinho de espada” e como Ministro da Marinha lhe apresentou a Getúlio para integrar seu gabinete. Depois disso sua subida foi meteórica. Amaral Peixoto foi um dos articuladores do parlamentarismo(que ele dizia de ocasião) para debelar a críse de 1961. Ele não tinha simpatia por Jango; achava que ele não tinha formação necessária e conhecia os problemas por fontes secundárias. Tenho para mim que apoiou tácitamente o golpe de 1964. Com Castelo Branco deve ter praticado os tais golpes de inteligência tão decantado pelo PSD. Revives com teu artigo uma página viva de nossa história.

  • antonio Apa

    Olá Helio,

    O Jornalista Carlos Castello Branco em 03 agosto de 1967. Em seu livro “OS MILITARES NO PODER” faz as seguintes citaçôes sobre o senhor:
    - O Sr. Carlos Lacerda vai visitar o confinado em Fernando de Noronha. Essa visita, e o que ela seguirá, renovarão o aspecto emocional do caso e poderão agravar o atrito entre uma decisão emanada do poder militar e a reação das correntes civis.

    - Hoje, vai-se perdendo quase na distância dos dias o fato que provocou o degredo do jornalista e pouco se fala, quando se trata do assunto, no artigo de agressão à memória do Presidente castelo Branco. O Sr. Hélio Fernandes tornou-se uma espécie de herdeiro político às avessas do falecido marechal, a quem sucedeu no noticiário e nas preocupações políticas. É a sua prisão, por enquanto, a consequência mais visível do desaparecimento do presidente.

    +++ O jornalista Carlos Castello Branco(_Que já trabalhou na Tribuna) parece que não apoiava suas idéias. Pois, nos 2 volumes (Os Militares no Poder) o nome Hélio Fernandes é citado abertamente. Mas no meu entendimento, sem apoia-lo. Obrigado!

  • Castelo sendo amigo de Alkmim?
    Claro que nada havia de amizade, mas tudo de ambição e interesse. Os dois eram pequenos em estatura e disformes em caráter. Se juntarmos o “almirante da Cantareira” (nunca embarcou, apenas nas barcas), o cenário fica, ao mesmo tempo mais cômico e mais grosseiro.
    No começo da década de 60 nem o gen Amaury Kruel (que foi chefe de polícia, de onde veio sua fama cruel contra bandidos), nem mesmo ele poderia ser considerado realmente um general. Eram todos raposas vaidosíssimas à procura de uma oportunidade de tirar proveityo político, não para o Brasil, mas para si próprios.
    A descrição do jornalista e mestre Helio Fernandes está historicamente perfeita.
    Procuro acrescentar agora o aspecto político internacional que muito assustava as Forças Armadas com aquela história de “perigo amarelo”, que servia de pretexto e pano de fundo para encobrir a fogueira das vaidades e ambições. Nada a ver com os interesses da Pátria. Os que mais se aproximaram desses interesses foram justamente JUscelino, com o Almirante Lucio Meira e João goulart, com o Governador gaúcho Leonel Brizola. Todos os outros anteriormente citados faziam o jogo das ambições pessoais e o jogo do imperialismo americano.
    À exceçao do que Juscelino esboçou, no Brasil não havia um plano próprio de desenvolvimento. As figuras supracitadas não eram propriamente cientistas políticos, tão pouco grandes conhecedores da marcha dos acontecimentos históricos. Simulavam “amizades” para ocuperem cargos, como fez Kruel em relação a Jango.
    No íntimo, tinham apenas aquela convicção idiota de combater o comunismo, o perigo vermelho e o perigo amarelo. Inclusive o Sr. Carlos Lacerda. Não possuiam plano algum para o desenvolvimento nacional, à exceção, repito, do Sr, Juscelino apoiado pelos Almirantes Lucio Martins Meira e Otacílio Cunha, estes sim, verdadeiros propulsores do progresso.
    Havia laços ideológicos que uniam o gigante asiático Mao Tse Tung a Fidel Castro, o vitorioso revolucionário de Cuba. O chefe barbado de Havana sempre tentara equilibrar-se entre a URSS e a CHINA, pois tinha necessidade de ambas economicamente. Em Pequim, as exportações cubanas recebiam um tratamento de favor, e Che Guevara foi recebido por Mao.
    Mas no princípio de Janeiro de 1966, nasce uma grave tensão entre os dois países. No dia 2 Fidel realmente anuncia que a China havia reduzido pela metade suas exportações para Cuba. Um mes mais tarde Castro acusa os dirigentes chineses de fazerem o jogo do imperialismo yankee.
    Entrtanto, do seu retiro em Xangai, Mao dirige a ofensiva, não contra Castro, mas contra seu inimigos mais perigosos: os intelectuais.
    Foi essa visão estratègica que faltou aos figurantes da política no Brasil, nenhum deles com a maturidade política de um Mao Tse Tung.
    Tudo começou a 15 de Novembro de 1965, quando um jornal de Xangai, o Wenhui Pao, publica um artigo de Yao Wen-yuan criticando a peça de Wu-Han, intitulada “A Destituição de Hai Jui”
    Entra em cena então a Sra. Chiang Chin–a senhora Mao Tse Tung, que mais tarde promoveria a Revoluçao Cultural. A senhora Chiang interfere a favoa de Yao. E começa o período de depuração política e ideológica na China.
    Todos sabem o resto da história, a China hoje sendo uma verdadeira potência.

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